Arquivo para Setembro, 2008

sem título

Postado em escritos fotográficos com as tags em Setembro 23, 2008 por Caio Paganotti

 

Sentou em frente à máquina de escrever. Era um computador, na verdade. Mas tudo ficava amplamente mais interessante e romântico quando ele transmutava a realidade ao seu favor.

A camisa entreaberta poderia até sugerir um clima ameno, final de primavera. Mas não era. Era definitivamente verão. Ou poderia ser um inverno, também – o tempo, nessas terras, não dá margem a interpretações bem resolvidas. Estava quente. Suficientemente quente para que a camisa enfeitasse alguma cadeira da sala ou algum outro canto igualmente irrelevante. Mas ela se achava entreaberta, cobrindo o corpo indeciso. Estava protegendo-se de algo, como os homens de antigamente atrincheiravam-se sob chapéus, querendo acreditar que um deus havia – e ele haveria de merecer respeito!

Mas nessa noite, deus nenhum pairava sobre o quarto. Restava um respeito apenas silencioso pela noite, amante de longa data. Restava um medo de revelar-se a impossíveis espectadores.

As costas arqueavam. A máquina de escrever estava a uma altura perfeita. A cadeira acompanhava-na. Mas as costas ainda não estavam certas. Como um arco antigo, puxado demasiadamente, tendo disparado demasiadamente – acertado às vezes –, seu corpo começava a pedir pelo calmo descanso de um museu. O peso de todas as suas palavras – as lidas e as escritas – começava a cair sobre os ombros, emprestando um semblante triste ao rosto que quase surgia em suas costas com a parca iluminação do quarto.

Talvez era exatamente essa vergonha, a vergonha de ser apenas mortal, que a camisa lhe cobria.

O cordão apertava o pescoço. Sempre apertava. O pingente de metal frio trazia o toque de uma velha amante, que não a noite. A peça enconstava, dançando aos ventos, na base do pescoço, como se fosse um dedo frio que, às vezes, decidia enforcar – mas que afastava rapidamente.

O branco da página lhe sorria rispidamente. Tingia sua visão além da página, alvejava o quarto, a vista da janela, o mundo.

Um incômodo incessante na garganta. Havia algo errado. As mãos tremiam e buscavam o maço de cigarros, amassado de tão fiel. Acendeu um cigarro e puxou muita fumaça para dentro – tentava deglutir as palavras garganta abaixo. Elas não saíam de lá. Era mais que claro que, para dentro, elas não iriam. A fumaça invadiu os pulmões, noturna, desejando habitá-los eternamente. O caminho inverso trouxe certa aspereza e ânsia, mas ainda sem resultados.

Havia engolido as próprias palavras. E sem muito sucesso, aparentemente.

ao lado

Postado em escritos fotográficos com as tags em Setembro 4, 2008 por Caio Paganotti

aos diabos o meu blog. aos diabos quaisquer palavras que não aquelas. aos diabos com as coisas que eu já escrevi ou não quis escrever para não ser dominado por sentimentos.

aos diabos os livros que eu comprei, os livros que eu li e a subtração ridícula daqueles por estes. aos diabos os grandes escritores, os famosos, os compreendidos, os incompreendidos.

aos diabos o tempo que passei na cama, afundando em areia. aos diabos as vezes que preferi qualquer outra coisa que não a verdadeira. aos diabos os olhos falsos e os olhos que jamais perceberão o que é não ter olhos a nada mais.

aos diabos tudo o que algum dia me tomou tempo – tempo que sempre deveria ter sido tão seu, tão verdadeiramente e fielmente seu.

arrependo-me de todas as escolhas que me levaram ao longe. todas as letras vindas de longe. todas as aventuras que eu nunca vivi, todos os sentimentos que se criaram ao longe. toda a vida que me aqueceu o olhar, todos os contos e todas as palavras tão distantes de mim.

hoje eu descobri o meu melhor autor. hoje eu achei as palavras que há muito haviam ido. hoje eu aprendi o que é amar, o que é perder, o que é sentir, o que é viver e o que é viver a falta de alguma coisa. hoje eu li. hoje as palavras vieram a mim, como se fosse a maneira mais natural.

hoje descobri o meu melhor autor.

e ele dorme no quarto ao lado.

http://8frases.blogspot.com