sem título
Sentou em frente à máquina de escrever. Era um computador, na verdade. Mas tudo ficava amplamente mais interessante e romântico quando ele transmutava a realidade ao seu favor.
A camisa entreaberta poderia até sugerir um clima ameno, final de primavera. Mas não era. Era definitivamente verão. Ou poderia ser um inverno, também – o tempo, nessas terras, não dá margem a interpretações bem resolvidas. Estava quente. Suficientemente quente para que a camisa enfeitasse alguma cadeira da sala ou algum outro canto igualmente irrelevante. Mas ela se achava entreaberta, cobrindo o corpo indeciso. Estava protegendo-se de algo, como os homens de antigamente atrincheiravam-se sob chapéus, querendo acreditar que um deus havia – e ele haveria de merecer respeito!
Mas nessa noite, deus nenhum pairava sobre o quarto. Restava um respeito apenas silencioso pela noite, amante de longa data. Restava um medo de revelar-se a impossíveis espectadores.
As costas arqueavam. A máquina de escrever estava a uma altura perfeita. A cadeira acompanhava-na. Mas as costas ainda não estavam certas. Como um arco antigo, puxado demasiadamente, tendo disparado demasiadamente – acertado às vezes –, seu corpo começava a pedir pelo calmo descanso de um museu. O peso de todas as suas palavras – as lidas e as escritas – começava a cair sobre os ombros, emprestando um semblante triste ao rosto que quase surgia em suas costas com a parca iluminação do quarto.
Talvez era exatamente essa vergonha, a vergonha de ser apenas mortal, que a camisa lhe cobria.
O cordão apertava o pescoço. Sempre apertava. O pingente de metal frio trazia o toque de uma velha amante, que não a noite. A peça enconstava, dançando aos ventos, na base do pescoço, como se fosse um dedo frio que, às vezes, decidia enforcar – mas que afastava rapidamente.
O branco da página lhe sorria rispidamente. Tingia sua visão além da página, alvejava o quarto, a vista da janela, o mundo.
Um incômodo incessante na garganta. Havia algo errado. As mãos tremiam e buscavam o maço de cigarros, amassado de tão fiel. Acendeu um cigarro e puxou muita fumaça para dentro – tentava deglutir as palavras garganta abaixo. Elas não saíam de lá. Era mais que claro que, para dentro, elas não iriam. A fumaça invadiu os pulmões, noturna, desejando habitá-los eternamente. O caminho inverso trouxe certa aspereza e ânsia, mas ainda sem resultados.
Havia engolido as próprias palavras. E sem muito sucesso, aparentemente.
Setembro 24, 2008 às 2:55 pm
du grandessíssimo caralho esse texto.
Outubro 9, 2008 às 11:00 am
Restava um medo de revelar-se a impossíveis espectadores.
Janeiro 25, 2009 às 10:49 am
Nossa… Que texto bonito!
Ele engoliu as palavras… E a noite era sua amante… Medo de revelar-se…
Adorei. Me lembrou algumas noites, algumas madrugadas… Da vontade sufocante de dizer algo e de repente engolir as palavras, uma por uma… A gente nunca se revela por completo nos textos, não dá para ficar tão nu, tão exposto, há sempre a necessidade de escolhermos para quem escrevemos e de irmos escrevendo o que é possível de ser revelado para aquela pessoa…
Desculpa se viajo ou fujo da realidade do seu texto, mas é que fui lembrando de muitas coisas… As pessoas às vezes chegam com comentários tão diferentes do que esperávamos ao escrever! É que cada um anda com sua cabeça, cabeças umas diferentes das outras… rs …bjs.