olhos roubados

Postado em escritos fotográficos, fotografia com as tags , em Março 3, 2008 por Caio Paganotti

aconteceu enquanto eu trabalhava. ou enquanto eu dormia, não me lembro ao certo.

eles vieram. sem pisar as flores no jardim, violaram a minha casa, o meu templo – o meu templo sem deus. inutilizaram os meus já cansados sistemas de defesa de maneira tão corriqueira… que a inveja quase brotou-me nos lábios incrédulos.

levaram-me muito. de tudo, um pouco. deixaram o que nada lhes apeteceu. a minha vida estava lá, exposta, fatiada, pronta para se servir. meu carro era um mix de petit four vagabundos e caros em uma bandeja flutuante que passeava por alguma festa pauliceiamente desvairada.

na balança, o saldo negativo estratosferizava os meus olhos quase mortos. objetos caros e impessoais que não eram meus, roupas de um esporte que ainda não comecei a praticar, uma fiel escova de dentes, bandanas memoráveis, uma boina (ah!, a minha boina!), o meu rádio – fiel companheiro nas horas perdidas da madrugada, quando as almas em paz descansam -, um celular novo (quase noivo), um fone com tecnologia bluetooth que nunca conseguiu me ligar às pessoas e, por último, como num golpe de misericórdia impiedosa, levaram-me os olhos.

a minha mala de fotografia continha alguns cabos, carregadores, pilhas, baterias, acessórios, manuais… coisas de menor importância. mas, ainda assim, o maior valor comumente se acha associado ao menor preço.

o corpo de uma canon eos 500N estava lá. era uma máquina pequena, já avariada, avaliada em alguns poucos reais. seus detalhes argênteos apenas denunciavam a sua distância absurda do profissionalismo. lembrando-me dela, agora, não sei ao certo se sinto pena, compaixão ou saudade. era uma máquina modesta, quase imperceptível – e ela dizia tanto sobre mim!

era a melhor máquina que uma criança poderia comprar.

a 500N foi o meu primeiro par de olhos. a minha primeira imagem em 24×36 (ou quase isso). a minha primeira revelação. a minha primeira pesquisa. a minha primeira descoberta. foi ela que me ensinou a olhar e ver.

e os meus olhos me foram roubados, arrancados covardemente. e eu nem pude dizer adeus…

quero acreditar que a 500N servirá de novos olhos a outras pessoas, ainda que o ciúme quase me arranque essas palavras.

(…)

sem perspectivas. sem futuro. sem passado. sem idéias. sem saídas.

sem olhos, eu chorei.

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Postado em escritos fotográficos, fotografia com as tags , em Fevereiro 22, 2008 por Caio Paganotti

estava lá.

ninguém parou pra perceber a beleza do futuro-passado. o tempo acontecia desenfreadamente, e ninguém se importava: as pessoas passavam, a passos profundos e impessoais.

o mundo morria. mas vela alguma era acendida. o calor efêmero que saía das faces se dissipava em meio à confusão disforme das massas.

o tempo passava. todos olhavam o relógio, como se ele pudesse de fato mostrar o tempo – cada segundo em que se olha um relógio é um segundo a menos. e o primeiro segundo de qualquer fato incompreensivelmente perfeito era perdido. perdido no tempo que não pertencia a ninguém.

mas o garoto tinha olhos. tinha percepção. tinha desejo, vontade, paixão. tinha a solução para todos os problemas imperceptíveis. tinha a vontade de estudar e responder. tinha forças e fraquezas em demasia. tinha uma câmera.

e, ao clicar o mundo, revelou-se em tons irreconhecíveis; matizes absurdamente surreais, distâncias focais quilométricas de tão próximas, um campo profundamente simples e uma química quase que compreensível.

o resultado, ele nunca mostrou a ninguém. não haveria quem compreendesse a beleza da sua primeira fotografia.